Hora do Almoço

Qual é o seu horário de almoço e como você vivencia este momento?



Joana, aos altos dos seus 35 anos, olha agora para o seu relógio que marca 14 horas e se lembra que se esquecera de almoçar. Em plena quinta-feira ela não gostaria de repetir o desastre da perda do horário do almoço que acontecera nos demais dias da semana. O fato é que desde que ela deixou de trabalhar em um modelo tradicional, com horários definidos por turnos como ocorria no período industrial, ela que agora era freelancer, frequentemente tem se esquecido de interromper a sua jornada para almoçar.

Ela buscou um restaurante modesto, com preço razoável, mas uma comida saudável. Afinal ela se preocupa com a saúde. Neste momento Joana tenta se lembrar de quando fez uma refeição em casa, pois mora sozinha e fazer comida lhe faz perder muitos ingredientes e muito tempo. Puxa vida, pensou ela, o meu livro de receitas antigo traz refeições que rendem para 4 ou 6 pessoas e nem cabem todas elas no meu apartamento. Ela achou graça disso!

Joana encontra o restaurante adequado ao seu bolso e exigências e observa que ele possui muitas mesas de um só lugar, algumas com dois lugares. Ela se recorda que ao sair com os pais para um restaurante, algo que acontecia raramente, as mesas dos restaurantes eram grandes e as famílias inteiras se espalhavam em lugares devidamente marcados: o pai na cabeceira da mesa, a mãe à esquerda do pai e depois o irmão mais velho, seguido pela sua irmã do meio e, finalmente ela, a caçula. Então os pais conversavam e entravam em consenso quanto ao prato a ser pedido, que atenderia a toda família e caberia no bolso. Joana ficava tranquila, pois sabia que ela teria um bom pedaço de frango. Afinal, a ida ao restaurante sempre coincidia com o dia do pagamento do seu pai.

Agora ela volta a si e se lembra que como freelancer ela não tem mais o tal "dia do pagamento", pois o seu recebimento varia muito. Com efeito, ela também não pode mais ter a garantia do seu bom pedaço de frango quando se senta à mesa de um restaurante. Joana faz o seu pedido e, sozinha, olha para as pessoas que, assim como ela, perderam o horário do almoço industrial e estão ali sozinhos. Neste momento, o celular vira um bom companheiro para afastar da lembrança aquela saudosa e ilusória cena do comercial de margarinas com toda família gentil e feliz compartilhando o café da manhã demorado. Ela imagina agora o volume de louças para lavar que ela teria logo pela manhã e tenta se recordar do que comera no café da manhã de hoje. Ela somente se recorda de ter agarrado a sua bolsa e ter saído logo em seguida correndo, pois estava atrasada para atender um cliente.


Joana observa as pessoas no restaurante e tenta, mentalmente, contar para si o que elas buscam no celular.

Aquele deve se chamar José e ele está assistindo ao noticiário no celular. Ele sequer deu conta de que está sozinho fazendo a refeição e o noticiário é a sua família do comercial de margarina. Joana dá uma contida gargalhada ao observar José respondendo o "boa tarde" do repórter.

Aquela outra é a Maria. Ela sim, percebeu a solidão daquele momento e resolveu ligar para uma amiga. Maria conta, em voz alta, detalhes da sua relação conjugal, pedindo a opinião sincera da amiga. Joana sabe que a amiga não está sendo tão sincera assim, mas ela agrada Maria, que agora tem companhia para o almoço mesmo sendo pelo celular.

Aquele outro é o João, humm... este deve ser o seu nome. Certamente é isso mesmo, conclui Joana. João simplesmente não parou de trabalhar para almoçar. Entre uma garfada e outra, ele engole a comida para dar tempo de responder uma provocação de uma reunião de trabalho. João conversa com várias pessoas ao mesmo tempo e curiosamente, conclui Joana, ele é o único daquele local que está almoçando com muitas pessoas, mesmo sequer tendo a consciência de que está almoçando.

Joana para por um momento, se olha e se percebe tão sozinha quanto tantos outros ali. Também como eles ela busca companhia imaginária para este ato que historicamente fazemos em companhia de pessoas queridas. Hoje ela almoçou com o José, a Maria e o João.

Ela pega o guardanapo, limpa a boca e mentalmente se despede de seus colegas de almoço. Será que vamos almoçar juntos amanhã novamente? Bom, ela precisará se lembrar do almoço.

Joana sai às pressas com um satisfeito sorriso na boca, pois hoje teve frango.


Referência:

Tonon, Rafael. As revoluções da comida. O impacto de nossas escolhas à mesa.

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